A Livroteca Brincante do Pina.
Biblioteca comunitária, espaço de cultura, educação popular e convivência — conduzido por moradores do Bode, sustentado por doações, voluntariado e, agora, uma loja própria.
Uma iniciativa nascida de dentro da comunidade.
A Livroteca Brincante do Pina é uma iniciativa comunitária, autogerida e não-lucrativa, sediada na comunidade do Bode, no bairro do Pina, Zona Sul do Recife. Funciona como biblioteca comunitária e como espaço de cultura, educação popular e convivência para crianças, adolescentes, jovens e famílias do território.
A Livroteca não é um equipamento público nem um projeto de ONG externa: nasceu de dentro da comunidade, é conduzida por moradores e se sustenta por doações, voluntariado e por uma loja própria.
"Cada livro é uma carta de alforria."
A história da Livroteca começa antes da Livroteca. Ainda criança, Ricardo Gomes Ferraz — Kcal — crescia no Bode em condições de extrema precariedade, sustentado afetivamente pela educação da avó. Começou a trabalhar aos seis anos para ajudar em casa.
O ponto de virada foi um encontro fortuito: dentro de uma sacola jogada na praia, Kcal achou um exemplar de A Mão e a Luva, de Machado de Assis. A leitura desse livro funcionou como carta de chamada: foi ali que ele entendeu a literatura como caminho de busca da própria voz e do próprio lugar no mundo.
A partir dos 20 anos, movido pelo desejo de "libertar seu povo da ignorância e da falta de acesso à cultura", Kcal começou a acumular livros. Transformou a própria casa de palafita no Bode em um espaço de partilha, leitura e brincadeira para as crianças da vizinhança — em torno de 1997, esse acervo improvisado já era reconhecido na comunidade como a Livroteca Brincante do Pina.
Em quase três décadas, a Livroteca virou referência de cultura popular e educação comunitária no Recife. Hoje tem um acervo de cerca de 8.000 livros, cerca de 120 crianças cadastradas, uma programação semanal estável e uma rede de parceiros locais. Atravessou enchentes, incêndios, ameaças de remoção, a chegada do Shopping RioMar, a construção da Via Mangue, a pressão imobiliária e a pandemia — e permaneceu dentro da favela, nunca fora dela.
"A favela não é o estereótipo midiático da criminalidade — é, antes de mais nada, um viveiro de artistas."
Doutor em filosofia de rua.
Kcal é o nome pelo qual é conhecido Ricardo Gomes Ferraz: poeta, músico, ativista cultural, morador do Bode e idealizador da Livroteca. Ele se autodescreve, com humor, como "doutor em filosofia de rua" — formado, segundo ele mesmo, "na academia internacional de letras, desde hoje".
Sua trajetória mistura música, poesia, escrita, mediação cultural e trabalho cotidiano com crianças e jovens da comunidade. Kcal é, ao mesmo tempo, fundador, condutor e símbolo da Livroteca — mas o projeto, ao longo dos anos, foi se constituindo como uma rede coletiva de moradores, voluntários, educadores e parceiros que garantem o funcionamento do espaço.
Uma escolha política: ficar dentro da favela
Ao longo dos anos, Kcal recebeu propostas de deslocar a biblioteca para um lugar "mais seguro", fora da favela. Recusou todas. Para ele, a Livroteca só faz sentido onde o povo precisa dela — e isso significa, literalmente, no Bode, no meio da comunidade.
Biblioteca, oficinas, música, cinema, mangue.
A base da Livroteca é a biblioteca comunitária: empréstimo, leitura no espaço, mediação de leitura e contação de histórias. Em torno dela, gira uma programação contínua de oficinas, cursos e ações culturais.
- Biblioteca comunitária — empréstimo, leitura livre, mediação, contação de histórias.
- Oficinas de escrita conduzidas por Kcal — leitura, escrita poética, formação de leitores.
- Capoeira — aulas regulares para crianças e jovens.
- Música — canto, prática instrumental, oficinas de musicalização.
- Circo — acrobacia, malabares, expressão corporal.
- Desenho e artes visuais — oficinas regulares e pontuais.
- Reforço escolar e alfabetização — apoio a crianças e a moradores adultos.
- Cine Bode — sessões comunitárias de cinema na quadra.
- A Voz da Lama — podcast / rádio comunitária produzida pela Livroteca.
- Ações ambientais — corridas de barco, mutirões e oficinas em torno do mangue e do Rio Pina.
- Ações conjuntas com coletivos parceiros — grafite, vacinação, projetos culturais.
A programação acontece principalmente em dois espaços: a biblioteca/sede propriamente dita e a quadra, onde rolam capoeira, circo, música, cinema, eventos e ações coletivas.
Onde a Livroteca acontece.
O Bode é uma das comunidades do bairro do Pina, na Zona Sul do Recife. Está cercado pelo Rio Pina e pelo mangue, e é formado por uma parte em terra firme — ruas, becos e casas de alvenaria — e por uma parte em palafitas, casas de madeira erguidas sobre estacas na maré e no mangue. É classificado oficialmente como ZEIS (Zona Especial de Interesse Social), categoria urbanística que reconhece o assentamento popular e, em tese, o protege de remoção.
A comunidade fica a poucos metros da orla, das torres residenciais de alto padrão e dos condomínios fechados que compõem hoje a paisagem do Pina. Dois grandes equipamentos urbanos delimitam fisicamente esse entorno: o Shopping RioMar (2012) e a Via Mangue (2014) — peças centrais da pressão imobiliária e das remoções que marcam a história recente do Bode.
Uma comunidade negra, jovem e culturalmente rica
Levantamentos recentes apontam cerca de 25 mil moradores no Bode. A população é majoritariamente negra e jovem. A renda vem da pesca, do trabalho informal, do comércio local e do emprego precarizado nos serviços do entorno. O Pina sempre foi conhecido como território de comunidades de matriz africana: dali saiu um dos ramos do candomblé nagô de Pernambuco, e a região permanece polo importante de maracatu, capoeira e cultura popular.
Especulação imobiliária e remoções
O Bode vive uma contradição típica das favelas litorâneas: é uma comunidade pobre encravada em uma das áreas mais valorizadas da cidade. Somando Via Mangue, urbanização do Pina e Parque Linear do Rio Pina, mais de mil famílias foram deslocadas desse trecho de Recife desde 2012. A combinação entre incêndios, "urbanização" e novos empreendimentos de luxo é lida por moradores, jornalistas independentes e pesquisadores como uma operação de remoção branda: famílias saem por exaustão, indenização baixa ou auxílio temporário, e o terreno é incorporado à valorização do bairro.
Por que o Bode importa para a Livroteca
A Livroteca Brincante existe dentro desse contexto, não ao lado dele. Cada atividade — biblioteca, capoeira, música, circo, desenho — acontece em um território onde crianças e jovens são alvo simultâneo de negligência estatal e de violência policial; famílias vivem sob pressão constante de remoção; a cultura afro-brasileira e popular é, ao mesmo tempo, motor de identidade e alvo de apagamento. Apresentar o Bode aqui não é cenário — é parte da missão.
Quase 30 anos no Bode.
- Acesso à leitura para gerações de crianças do Bode, em uma região historicamente sem biblioteca pública próxima.
- Espaço seguro para crianças e jovens em um território marcado por violência urbana e policial.
- Formação cultural — capoeira, música, circo, audiovisual — em uma comunidade onde escolas regulares oferecem pouco ou nenhum desses conteúdos.
- Mobilização comunitária: durante a pandemia, a Livroteca articulou a distribuição de alimentos e itens de higiene a mais de 300 famílias do Bode.
- Visibilidade externa — matérias na imprensa nacional e um filme-documentário que participou do Festival de Cinema de Roma.
Três pilares, nenhum financiador estável.
A Livroteca não recebe financiamento estável de governo, empresa ou ONG externa. Sua sustentação se apoia em três pilares — e cada um deles tem uma página dedicada.
Doações financeiras, livros, materiais. Recorrentes ou pontuais.
Presencial no Bode ou remoto — leitura, oficinas, comunicação, design, tradução, tech.
Auto-financiamento sustentável: produtos da Livroteca ligados ao projeto e à comunidade.